Carta aberta ao Presidente Lula do Brasil

Enviado por tortilla el Sáb, 29/07/2023 - 16:35

Presidente Luiz Inacio Lula da Silva

24 de julio de 2023
 

Excelentíssimo Senhor Presidente Luiz Inacio Lula da Silva:


No dia 17 de março de 2003 eu estava no seu Gabinete como representante do Conselho Nacional de Igrejas dos Estados Unidos, solicitando seu apoio com os presidentes dos países não-alinhados para tentar evitar a guerra dos Estados Unidos contra Iraq. Você me recebeu com um abraço bem grande, pois você lembrou meu caso como o missionário Metodista, colaborador de Dom Hélder Câmara no Recife, sequestrado pelo Quarto Exercito e torturado pelo mesmo por 17 dias antes de ser expulso do Brasil em 1974.


Infelizmente o Presidente GW Bush declarou guerra contra Iraq na mesma noite às 21:00 horas (horário de Brasilia) e você não teve tempo de ajudar evitar a mesma.


Em 2021 eu me aposentei depois de 68 anos de ministério Metodista e mudei para Nicaragua, onde moro até agora permanentemente.


Estou lhe escrevendo agora sobre o caso de Bispo Rolando José Álvarez Lagos, pois existe muita mal informação sobre o caso dele. Ele está sendo apresentado pela mídia norteamericana como preso político do governo Sandinista. Como cidadão nicaraguense e residente de Managua eu posso lhe assegurar que a realidade é bem outra.


Como você bem sabe, em abril de 2018 a Embaixada da EUA aqui em Nicaragua lançou uma tentativa de “regime change.” Durante vários anos antes, a Embaixada, USAID, a National Endowment for Democracy (NED--entidade formada e financiada pelo Congresso norteamericano), e outros agencias do governo dos EUA, havia enviado vários milhões de dólares a Nicaragua em forma semi-clandestina para apoiar entidades não governamentales (ONGs) que trabalhavam duramente para preparar a tentativa de golpe, uma tentativa de derrubar o governo do Presidente Daniel Ortega.


Enviaram várias centenas de estudantes nicaraguenses aos EUA para estágios para “aprender a democracia.” Este projeto funcionou em forma bem semelhante a nefasta Escola das Américas, durante muitos anos situada em Panama, atualmente em Fort Benning, Georgia, EUA, pois foi expulsa de Panama. Esta “Escola” treinou centenas de militares latino-americanos em como combater “comunismo”. O Major Maia quem era o chefe da Sala de Tortura do Quarto Exercito donde eu fui torturado, se vangloriava em dizer-me que era graduado da Escola, havendo passado um ano em Panama apreendendo como era a pratica de tortura.

No dia 18 de abril de 2018, em cinco cidades distintas aqui em Nicaragua, às 9:00 horas saíram protestas “espontáneas”. Todos os protestos eram liderados por estudantes que haviam participado nas viagens aos EUA de “orientação” dos anos anteriores.


Imediatamente os grupos de protesto levantaram barreiras nas ruas principais das cidades maiores do pais e das carreteras internacionais. Logo estas “bloqueos” foram “protegidos” por deliquentes comunes que foram recrutados y pagados para aumentar o número de personas nas protestas e forneces “músculos” para defender tais bloqueos. Logo provocaram conflitos armados contra ciudadões comuns que resultaram na morte de umas 260 personas de acordo com fontes impecables. As autopsias revelaram que a maioria das vítimas morreram com uma bala na cabeça ou no pescoço, resultado do trabalho dum francotirador. (Esto é bem semelhante a que passou em Venezuela com o golpe de 2002 contra o Presidente Chavez.) Entre os mortos eram 22 policías Sandinistas com 400 outros policiais feridas por balas.


Também foram um sem número de casos de tortura de Sandinistas que foram capturados pelos “rebeldes”. Já que eles estavam confidentes duma vitória, desde que a Embaixada financiou e apoiou a insurreição, muitos deles gravaram suas ações nos seus próprios smartphones, inclusive atos de tortura e os colocaram nas mídias sociais para intimidar a população. Mas a mídia ocidental suprimiu notícias de estas ações.


O Bispo Rolando Alvarez apoiava abertamente as tentativas de derrocar o governo Sandinista que foi eleito em 2016 com mais de 70% dos votos. Do seu próprio púlpito como bispo de Matagalpa e na rua ele encorajou os fieis da sua diocese a tomar qualquer medida para eliminar o governo Sandinista. O Bishop Álvarez era um de três bispos dos seis da Conferencia Nacional de Bispos Católicos que exigiram que o governo retirasse os policiais para os quarteis como pre-condição para iniciar um Dialogo Nacional, uma demanda que o Presidente Ortega aceitou imediatamente para facilitar a paz.


Mas os conflitos e tiroteios continuaram e em Julio de 2018 o governo Sandinista disse “Basta!” e começou a arrestar os que tentaram derrubar seu governo. Como mencionei antes, muitos deles haviam gravado suas ações nos seus smartphones e com esta evidencia foi fácil condenar muitos, inclusive alguns que haviam torturado e assassinado centenas. Mais de 200 foram condenados e presos.


Os EUA e o EU e seus suas procuradores nas industrias de direitos humanos protestaram imediatamente, declarando que todos eram “presos políticos”, inclusive os que foram condenados por assassinatos. Então, o governo Sandinista deu liberdade a todos por meio de uma anistia provisional, dizendo apenas que se voltaram a praticar algum crime teria que voltar à carcel e cumprir sua pena.


Infelizmente muitos romperam o trato e foram presos de novo. E em Junio de 2021 outro grupo foi arrestado e levado às tribunais por vários crimes, inclusive uso fraudulento de status de entidade sem-lucros e lavagem de dinheiro.


O Bispo Alvarez não deixou de criticar o governo e até dizer a seus fieis que deveram ir à rua e continuar a luta para derrubar o governo. Nas eleições de 2021, os Sandinistas ganharam 76% dos votos. O candidato em segundo lugar ganhou 12%.


O Bispo Álvarez tinha acesso e controle duma meia dúzia de estações de radio em Matagalpa e Esteli (no diocese dele) e todas elas estavam pregando contra o governo constantemente e empurrando o povo para levantar com violência.


A Igreja Católica tem sido a religião oficial de Nicaragua por séculos. Os sacerdotes tem gozado de “imunidade diplomática” durante todo este período. Em várias ocasiões um padre acusado de crimes comuns como estupro ou robo, tem escapado de consequências reclamando tal imunidade. A maioria dos países do hemisfério são “estados seculares” agora, sem uma religião oficial. Encuestas populares recentes tem indicado que menos de 45% do povo de Nicaragua se indentifica como Católico, a maioria se identificando com vários grupos de “evangélicos.” Em março de este ano, o governo Sandinista retirou seu embaixador do Vaticano e logo depois a Vaticano fechou sua Embaixada em Managua. Como resultado, o Bispo Álvarez não goza de imunidade e finalmente o governo Sandinista acusou de insurreição e por pouco não acusou de traição. Com a apresentação da evidência de mais de cinco anos de opor o governo publicamente do seu púlpito e nas estações de radio e na rua, os tribunais o condenou e decretou prisão de 26 anos. Respeitando sua posição de bispo, deram “casa por carcel” e ele continuou a morar na mansão episcopal em Managua.


Em fevereiro deste ano, o governo de Nicaragua ofereceu a liberdade humanitária para 222 personas que estavam nas prisões por uma variedade de crimes, maiormente atos contra o governo, abuso do status de sem-lucros e lavagem de dinheiro. O Departamento de Estados dos EUA respondeu fretando um avião para levar todos a Washington, DC. O Bispo Ronaldo Álvarez era a única pessoa na lista que recusou o convite e como resultado foi condenado a passar sua pena de 26 anos na carcel e não na Mansão Episcopal.


O Bispo Rolando Álvarez não é um preso político, a não ser que promovendo insurreição foi considerado apenas um ato político.


O governo dos EUA está fazendo todo para convencer o mundo que o Bispo Álvarez é vitima de perseguição político, em vez de um criminal que tentou derrocar o governo eleito pelo povo de Nicaragua.


Estimado Presidente Lula, espero que você possa entender esta realidade e não fazer o jogo do governo dos EUA. Creio que os elementos que tentaram derrubar seu governo em Janeiro deste ano não são presos políticos, pero deliquentes.


Um detalhe mais: eu morava no Brasil durante mais de 10 anos, debaixo da ditadura militar estabelecida em 1964 com apoio da CIA. Durante estes anos, milhas de personas foram sequestradas pelas forças de segurança e torturados e desaparecidas ou mortas. Os militares não fizeram nenhuma esforça para esconder as torturas. Pelo contrario, queriam que o povo soubesse que criticando o governo podia facilmente resultar em tortura, ou até a morte. Todo mundo conheceu um colega, primo ou prima, tio ou tia, jornalista ou político que foi torturado. E assim o povo foi intimidado. Como resultado ninguém falou nada contra o governo, nem em reunião familiar, e muito menos num restaurante ou num bar.


Eu moro em Nicaragua já fazem oito anos ao todo e nunca tenho ouvido falar de uma pessoa que desapareceu ou que foi torturado. Muitos de minhas vizinhas não são Sandinistas. Moro num bairro de classe media. Quem não gosta do governo não deixa de expressar sua opinião. Ninguém tem medo de falar. Minha vizinha de frente trabalha num canal de TV que fala peste dos Sandinistas todos os dias—e nada passa.

O governo de Nicaragua não é uma ditadura. É um governo do povo, para o povo.


Com meu maior respeito,


Reverendo Fred Morris